Archive for Julho 24th, 2009
cp3
Cada qual julgava saber, ele só, a verdade inteira e, contemplando os outros, afligia-se, batia no peito, chorava e torcia as mãos. Ninguém se entendia sobre o bem e o mal, nem sabia quem se havia de condenar ou absolver. Matavam-se uns aos outros levados por uma cólera absurda. Reuniam-se formando grandes exércitos, mas, começada a campanha, as tropas dividiam-se, as fileiras rompiam-se, os guerreiros atiravam-se uns contra os outros, assassinavam-se e devoravam-se. Nas cidades tocava-se a rebate, todavia, mas por que e a que propósito? Ninguém sabia e todos andavam inquietos. Cada um propunha as suas idéias, as suas reformas e não havia acordo; a agricultura fora abandonada. Aqui e ali se reuniam vários grupos, combinavam uma ação comum, juravam não se separar – mas logo depois esqueciam-se da resolução tomada, começavam a acusar-se uns aos outros, a bater-se, a matar-se. Os incêndios e a fome completavam o triste quadro. Homens e coisas, tudo parecia. O flagelo estendia-se cada vez mais. No mundo só podiam salvar-se alguns homens puros, predestinados a refazer a humanidade, a renovar a vida e a purificar a terra; mas ninguém via esses homens; ninguém ouvia as suas palavras e suas vozes.
cp2
O senhor sabe, Terébieva (pertencente, hoje, à comuna) foi censurada quando abandonou a família e… se devotou. Ela escreveu a seus pais que não continuaria a viver convencionalmente e entregar-se-ia ao casamento livre; disseram-lhe que fora muito brutal, que os devia ter poupado e escrito em termos mais agradáveis. Acho tudo isso bobagem e que não há necessidade de brandura; ao contrário, é necessário o protesto. Varenta esteve casada sete anos, abandonou os dois filhos, e disse sem rebuços, em carta, a seu marido: “Concluí que não posso ser feliz contigo. Nunca te perdoarei ter-me escondido existir outra organização social, ou seja, a comuna. Só tardiamente aprendi essa lição com o magnânimo homem a quem me entreguei e com quem estou estabelecendo uma comuna. Falo claramente por considerar desonesto enganar-te. Faze o que entenderes. Não penses em meu regresso, és um retrógrado. Desejo que sejas feliz”. Assim deviam ser escritas todas as cartas!
Tabu
- Eu prometo!
- Eu sei! Eu acredito. Desde sempre
- Eu vou mudar. Isso é coisa de antes. Eu tô tentando tanto. Paro com tudo aquilo, sou outro. Juro!
- Eu sei, eu sei. Desde aquele dia eu continuo acreditando.
- Só mais uns anos. Aqui tem tudo corrido bem, não tive problema com os outros. E gostam tanto de você.
- Eu gosto deles também… tenho um pouco de medo. Antes tinha mais. Dá pra ver que gostam de mim. Tenho pena, sabe? Você… eu sou… sua, mas e eles? Essa gente tem ninguém na vida. Dá dó.
- Pois pra mim eles valem tanto quanto essas pedras que colocam a gente pra quebrar todo dia.
- Não diz isso…
- Tá, tá. Então, e a menina?
- Anda bem. Saudade do pai. Acredita que já consegue falar seu nome?
- Desde quando?!
- Esqueci de te falar da outra vez. Tem uns meses já.
- Saudade dela.
- … você não acha melhor
- Não! Já falei disso. E o Pedro?
- Tá bem também. Digo, acho né. Ligou semana passada, perguntou umas coisas e desligou. Nem disse onde estava.
- Deixou recado?
- Disse pra descansar que ele cuida de tudo.
- … Tá. Ah, oh, semana que vem.
- Semana que vem?
- Aniversário seu, não? Não tem visita. Fiz pra você. Comecei tem tempo.
- … essas letras?
- As mesmas do campo.
- Parece até que…
- Parabéns. Felicidades. Alegria?
- Sinto sua falta, sabia?
- Nem imaginava. Cuida de tudo por mim?
- Cuida de você por mim?